A chuva caía como cortinas de prata sobre Chiang Mai quando Maristela, cansada de fotografar templos, seguiu o som de música eletrônica vindo de um prédio abandonado. A placa rachada dizia “Lótus Noturno”, e dentro, mulheres de corpos pintados com tinta dourada giravam em poles enferrujados. Foi então que Lalita apareceu — olhos verdes como vidro quebrado, mãos adornadas com anéis de serpente.

— Você tem os músculos de uma dançarina — sussurrou, puxando Maristela para o centro do estúdio. — Mas pole dance não é só força… é deixar o espírito se torcer.

Sob a luz estroboscópica, Maristela se entregou aos movimentos. Lalita ajustava seu corpo com toques gelados, sussurrando frases em tailandês que ecoavam como cantigas de ninar macabras. Quando Maristela postou um clip da performance (o título: “Chuva e Ferro”), os comentários explodiram: “Quem é o homem atrás de você no espelho?” Ela revisou o vídeo — e lá estava: uma figura masculina de costas, suspensa no ar como se também estivesse dançando… em um pole que não existia.

Ao voltar ao estúdio, Maristela encontrou Lalita enrolada em uma pole como uma cobra, sua pele agora coberta por símbolos em tinta vermelha.

— Ah, você viu Phi Pret — riu, apontando para os espelhos. — Ele adora dançarinas… especialmente as que fotografam demais.

Os reflexos nos espelhos começaram a se mover independentemente, repetindo os passos de Maristela — mas com membros alongados demais, juntas torcidas em ângulos impossíveis. A última coisa que ela viu antes de desmaiar foi Lalita beijando o próprio reflexo… e o homem do vídeo saindo do espelho, com um sorriso de agulhas.

Maristela acordou em seu hotel, com o corpo coberto por hematomas em forma de dedos. No celular, uma mensagem anônima: “O Lótus Noturno não existe há 10 anos. Lalita morreu queimada em um incêndio aqui.” Anexado, um vídeo dela dançando na chuva… com três reflexos.