O convite veio em um envelope de couro, selado com cera vermelha:
“Querida Maristela, seu corpo é a última fronteira da arte. Venha ao Atelier der Verlorenen à meia-noite. Traga apenas sua pele.”
Intrigada, ela compareceu. O estúdio era uma antiga fábrica de cadáveres (literalmente — Niklas sussurrou que os nazistas usaram o local para experimentos). Cavaletes sustentavam telas cobertas por peles humanas esticadas, e o cheiro de terebintina misturava-se ao de carne queimada.
Niklas a pintou nua, usando tintas fluorescentes que ardiam como álcool em feridas. Cada pincelada era um verso em alemão arcaico:
“Blut und Knochen, zeig mir dein Gesicht unter der Maske…” (Sangue e ossos, mostre-me seu rosto sob a máscara).
Quando Maristela tentou lavar as tintas, descobriu que elas haviam se fundido à sua epiderme. Pior: os desenhos — criaturas com olhos alongados e bocas cheias de agulhas — piscavam quando ela olhava no espelho.
Na terceira noite, acordou com coceira. Suas costas eram agora um afresco de mulheres gritando, seus rostos tão detalhados que ela reconheceu… clientes de antigos ensaios fotográficos, todas mortas em acidentes bizarros. Niklas apareceu à porta de seu quarto, com um bisturi e um sorriso:
“Elas vivem na tela agora. Você será minha obra-prima — uma galeria ambulante.”
Maristela fugiu para o telhado, onde a chuva ácida de Berlim começou a dissolver as tintas — e sua pele junto. O que escorria não era sangue, mas tinta preta e fotos velhas de suas vítimas. Na manhã seguinte, Niklas foi encontrado morto em seu estúdio, pintado em sua própria tela. E em um beco próximo, turistas fotografaram uma mulher de costas — sua pele agora um mosaico de rostos silenciosos.