O convite chegou em uma caixa de ébano: dentro, um rolo de filme pré-exposto com uma única foto — Maristela dormindo em seu apartamento, na noite anterior. A nota dizia:

“Quero capturar o que ainda não aconteceu. Aceite, e você verá a verdade por trás de todas as suas fotos.”

Intrigada (e aterrorizada), ela embarcou no M/S Mnemosyne, um iate art déco onde até os espelhos pareciam refletir versões distorcidas da realidade.

Damian, um homem de olhos violeta e mãos cobertas por cicatrizes de queimaduras químicas, revelou as regras:

Nada de roupas (a pele, segundo ele, “registra a luz do futuro”).

Nada de poses (ela deveria se mover como se estivesse “sonâmbula”).

Enquanto a câmera de 1900 clickava, Maristela sentiu as lentes como dedos frios percorrendo seu corpo. Ao revelar as primeiras fotos, seu sangue gelou: ela aparecia em cenários que nunca visitara — um quarto com paredes de carne pulsante, um deserto de ossos, e por fim… uma mesa de mármore onde seu cadáver era dissecado por mãos enluvadas.

Damian riu ao ver seu terror:
“Ah, você finalmente entendeu. Minha câmera não tira fotos… ela extrai memórias do futuro.”

Ele então mostrou o negativo final — uma imagem de Maristela, naquela mesma noite, com os olhos arrancados e a boca costurada com fio fotossensível.

“A melhor parte?” — sussurrou, enrolando o filme em seu pescoço como uma coleira — “Você assinou o contrato quando aceitou o convite.”

Maristela acordou em seu estúdio, com um rolo de filme não revelado na mão. Quando o colocou contra a luz, viu a silhueta de Damian por trás — e seu próprio corpo, pendurado como um photograma em uma câmara escura gigante.