Maristela encontrou a loja por acaso, em uma viela de Montmartre, onde a neblina da manhã parecia tingir tudo de sépia. A placa desbotada dizia “La Jolie Folie – Lingerie d’Époque”, e o vestido rendado na vitrine tinha um caimento que a fez parar. A campainha tilintou ao entrar, e o cheiro de lavanda e naftalina envolveu-a como um abraço antigo.
A dona, uma senhora de cabelos prateados e olhos amendoados, sorriu ao vê-la tocar um conjunto preto e rosa.
— Ah, la pièce maîtresse… — murmurou, tirando-o do manequim. — Foi usado apenas uma vez, em 1957, por uma cliente muito especial. Você tem o mesmo… brilho.
Maristela riu, mas calafrios percorreram sua espinha quando a mulher acrescentou:
— Ela também era fotógrafa. Como você.
A peça era impecável: um babydoll de seda com ligas bordadas a fio dourado. A lojista insistiu em presentá-la, sob uma condição:
— Use-o em seu próximo ensaio. E me envie uma foto.
Naquela noite, no quarto de hotel, Maristela vestiu a lingerie e posou diante do espelho emoldirado. A sensação era estranha — a seda parecia apertar quando ela se movia, como mãos invisíveis ajustando as alças. Quando as fotos foram transferidas para o laptop, uma imagem chamou sua atenção: seu reflexo no espelho não a acompanhava. Na foto, ela sorria… enquanto a “outra” Maristela, no espelho, tinha os olhos escuros e a boca aberta em um grito silencioso.
Na madrugada, ela sonhou com uma mulher de costas, pentelando cabelos negros em um toucador. Quando a figura se virou, tinha o rosto de Maristela — mas os olhos eram da lojista.
— Você gostou do meu presente? — a mulher sussurrou, apontando para o espelho. — Ele sempre mostra a verdade.
Ao acordar, Maristela descobriu manchas de batom vermelho no pescoço. E no chão, uma foto antiga que não estava lá antes: uma modelo de lingerie idêntica, caída em um estúdio, com os olhos arregalados e a boca costurada com linha preta.
Ela voltou à loja ao amanhecer, mas o lugar estava abandonado há décadas. Entre o entulho, encontrou uma caixa com dezenas de babydolls iguais ao seu — cada um com uma foto amarrada à tag: mulheres de diferentes épocas, todas com suas feições, todas mortas.
No fundo da caixa, um bilhete:
“La Jolie Folie não vende lingerie, querida. Coleciona corpos. O seu já está quase pronto.”
Quando Maristela olhou para baixo, viu que os fios dourados do babydoll agora se entrelaçavam em sua pele, costurando-se lentamente em seu esterno. E no espelho quebrado da loja, sua reflexão sorria e acenava… sozinha.
Fim.