Maristela ajustou o corpete rendado no espelho embaçado do loft, enquanto a chuva batia contra os vidros altos. O convite fora misterioso: “Traga apenas lingerie preta e curiosidade”, assinado por um fotógrafo conhecido apenas como “Lux”. O estúdio, um antigo armazém reformado, cheirava a velas de patchuli e químicos de revelação — uma mistura que a deixou alerta.

A primeira foto foi um close de seus lábios entreabertos, iluminados por uma lâmpada de néon azul. Lux não falava, apenas a guiava com gestos frios. “Incline a cabeça para trás”, “Segure o espelho quebrado”. Ela obedeceu, mas quando as lentes capturaram seu reflexo, algo estranho surgiu: uma silhueta atrás dela, onde não havia ninguém.

— Você viu isso? — ela perguntou, apontando para a câmera digital.

Lux sorriu pela primeira vez. — “São só jogos de luz, querida. Arte.”

Na pausa para vinho tinto, Maristela vasculhou a mesa de edição. Entre os arquivos, encontrou uma pasta com seu nome — cheia de fotos antigas. Numa, ela estava de costas em um corredor escuro; noutra, seus dedos ensanguentados pressionavam a lente. Datadas de 2005. Ano em que ela tinha dez anos.

O coração acelerou quando ouviu o clique de uma câmera atrás de si. Lux observava-a, com um rolo de filme pendurado no pescoço como um colar de balas.

— Adoro quando elas reconhecem o próprio medo — ele sussurrou, avançando. — Você posou tão bem naquela noite… Lembra do porão da sua avó?

Maristela agarrou o tripé e golpeou sua cabeça. Enquanto ele caía, ela correu para a mesa, destruindo as câmeras com o salto agulha. Na fuga, levou apenas um negativo — aquele que mostrava ela mesma, adulta, de lingerie preta, em um quarto que não existia.

Dois dias depois, ao revelar o filme em casa, a última imagem a surgir na solução foi uma nota escrita à mão:

“Até a próxima sessão, Maristela. Desta vez, traga o conjunto de renda vermelha.”

Fim.